Vou ser honesto, pela primeira vez na minha vida!
Há uma arte no que faço. Uma arte que levei anos a aperfeiçoar, que refinei em silêncio enquanto o mundo me aplaudia ou me odiava!
O resultado era sempre o mesmo: eu ficava com o que queria!
Detesto não conseguir o que quero, quando quero e com quem quero!
Chamem-lhe manipulação se quiserem!
Comecei cedo. Não foi uma decisão consciente, pelo menos não ao princípio. Foi uma descoberta, como uma criança que descobre que se fingir que está doente não vai à escola. Só que eu não fingi estar doente para faltar às aulas. Fingi estar partido para que os outros se sentissem responsáveis por me reparar. E funcionou e funciona até hoje!
Tinha talvez oito anos quando percebi que o choro estratégico era mais poderoso do que qualquer birra. A birra afastava as pessoas. O choro certo, no momento certo, com o queixo a tremer da maneira certa — esse trazia-as de joelhos. A minha mãe, os professores e os colegas que queriam ser meus amigos!
Para a minha mãe, bastavam os olhos marejados e um silêncio pesado. Para os outros, precisava de mais drama!
E de repente aprendi a dominar os outros!
A vitimização — e vou usar essa palavra porque é a palavra certa, sem me esconder atrás de eufemismos — é a ferramenta mais subestimada do arsenal relacional humano!
Mexe nas emoções das pessoas e elas ficam tuas escravas emocionais!
Quando eu me faço de vítima, não estou a perder! Estou a investir, para não perder!
Pensem comigo: quando alguém se sente culpado em relação a ti, está em dívida!
E as dívidas emocionais são as mais difíceis de liquidar, porque nunca têm um valor fixo!
Eu decido quando a dívida está paga. Eu decido se está paga. Na prática, nunca está — porque eu controlo os termos do contrato!
Há pessoas que passam a vida inteira cheias de dívidas emocionais, para com os outros!
Há uma fase que eu chamo de "escutar os defeitos"!
Começa antes de qualquer conflito. É a fase em que ouço. Em que faço perguntas. Em que me mostro vulnerável primeiro, para que o outro se sinta seguro a partilhar!
As pessoas são extraordinariamente generosas com os seus pontos fracos, quando acham que estão a falar com alguém, que também é fraco!
E eu tomo nota. Não num caderno, claro. Tomo nota aqui dentro, nesse arquivo mental que mantém registos de tudo: o que te magoa, o que te envergonha, o que te faz duvidar de ti mesmo!
O momento em que a estratégia de vitimização se torna necessária é sempre o mesmo: quando percebo que estou a perder o controlo sobre alguém!
Pode ser quando a pessoa já desconfia que eu sou um cabrão! Pode ser porque encontrou um comparativo melhor!Pode ser porque a pessoa pediu ajuda a um(a) psicólogo)a) por exemplo! Pode ser porque a pessoa simplesmente cresceu e deixou de ter tantos medos, ou pior, deixou de ter medo de mim!
Seja qual for a razão, há um momento em que percebo que o meu poder sobre aquela pessoa está a diminuir!
É nesse momento que me torno a vítima.
Não de imediato, isso seria visível. Primeiro, há uma fase de "criar incertezas". Começo a deixar escapar pequenos comentários que fazem a pessoa questionar a sua própria perceção da realidade. "Achei que tínhamos combinado outra coisa." "Talvez tenha percebido mal, mas fiquei magoado com o que disseste." Nada acusatório. Nada que possa ser contestado diretamente!
Apenas sementes de dúvida plantadas com precisão cirúrgica!
A pessoa começa a questionar-se. Eu disse isso? Eu fiz isso? Estaria eu errada?
E enquanto ela está ocupada a questionar-se a si própria, eu ganho tempo. Reorganizo. Preparo o terreno para a próxima jogada!
Chamo-lhe "Mostrar-me vulnerável "!
Num momento de aparente fragilidade — que escolho com cuidado, geralmente quando a pessoa está emocionalmente disponível, talvez depois de uma boa conversa, talvez quando está cansada e tem as defesas baixas — deixo escapar algo que parece ser uma confissão dolorosa!
"Sei que tenho defeitos. Sei que às vezes magoo as pessoas sem querer. É algo com que luto todos os dias."!
E as pessoas boas — as pessoas que eu escolho cuidadosamente, porque as pessoas más são inúteis para mim — as pessoas boas não conseguem "bater em alguém que está no chão"!
Transformo a sua defesa na minha agressão!
"Não sabia que me vias assim."!
"Depois de tudo o que passei por ti."!
"Está bem. Percebo. Nunca fui suficiente para ti."!
Crio culpa sem especificar a causa. E o mais brilhante: faço a pessoa sentir que ela é a agressora e eu sou a vítima, mesmo que ela não tenha feito absolutamente nada de errado!
A pessoa fica confusa. A confusão paralisa. E enquanto está paralisada, eu reconquisto terreno!
Quanto mais uma pessoa investe numa relação — tempo, energia emoções, esperanças, o sonho que construiu sobre quem eu sou — mais difícil é para ela abandonar-me!
Cada vez que me dão o benefício da dúvida, o custo de mudar de opinião aumenta!
Vou falar-te agora sobre a jogada da "reconciliação" , porque é onde a vitimização se torna verdadeiramente cíclica e verdadeiramente eficaz!
Após um período de tensão — que eu crio, mas do qual me apresento como co-vítima — há sempre uma reconciliação!
Voltar aos beijos, aos abraços apertadinhos, ao sexo demorado e recíproco e acima de tudo prometer mudanças!
E quando o ciclo recomeça — porque recomeça sempre — a pessoa já está mais presa!
O que descobri é que a dor não afasta necessariamente as pessoas. Às vezes prende-as!
Talvez a confissão pública do monstro seja apenas mais uma forma de ser interessante.
Mais uma vez volto a ser o centro da narrativa. Mais uma forma de fazer-te sentir que me conheces, que tens acesso a algo que os outros não têm, que existo numa camada de autenticidade que raramente mostro!
Nada prende mais uma pessoa, do que sentir-se única!
E como eu, existem outros monstros!
Talvez os companheiros de algumas pessoas que estão a ler esta minha confissão!
Agora, não podem dizer que não sabem o que eles fazem, para vos manterem presas!
