Vivemos culpas e arrependimentos!
Há duas palavras, que as pessoas evitam como se fossem doenças contagiosas, como se ao pronunciá-las em voz alta, fosse suficiente para contaminar tudo o que está à volta. Culpa e arrependimento. São palavras caladas, cheias de vergonhas e sofridas às escondidas! Os livros de auto-ajuda, estão cheios de sabedoria barata sobre estas duas palavras — dizem que são tóxicas, que nos prendem ao passado, que uma vida para ser saudável é necessariamente uma vida livre desse peso. E pesam toneladas, estas duas palavras! Não há melhores conselhos, do que os dados nas vidas das outras pessoas! As vidas dos outros, são excelentes laboratórios para experimentarmos, os nossos conselhos e bitaites! As redes sociais, transbordam de frases bonitas sobre deixar ir, sobre não olhar para trás, sobre viver o presente como se o passado fosse uma mala, que podemos simplesmente abandonar numa estação de comboio e seguir viagem aliviados. Mas a nossa vida, são as nossas dores, sofrimentos e lágrimas! Para abandonarmos o passado, temos de encontrar no presente, alguma distração! E enquanto não largarmos o passado, nada nos distrai! Palavras positivas, dinâmicas e fofinhas são óptimas para vender livros, cursos e retiros sobre culpas e arrependimentos! Perante pessoas carregadas de culpas e cheias de arrependimentos, as pessoas vendem frases positivas, cheias de entusiasmo, sentem-se bem a partilhá-las, aconselham a guardarem-nas no telefone para reler em momentos difíceis — e depois destes incentivos continuam exactamente iguais ao que eram antes de as ter lido e ouvido! Livros, cursos e retiros são altamente rentáveis, com tanta gente sem norte! A vida não tem pause ou stop e muito menos reset! Porque a verdade — essa coisa que ninguém quer ouvir, mas que toda a gente precisaria de ouvir pelo menos, uma vez na vida com honestidade suficiente para a deixar entrar — a verdade é que a culpa e o arrependimento não são doenças. São sintomas do que se passou e nos agarrou aquele momento! Somos nós a dizer a nós próprios, que podíamos ter feito diferente, melhor ou evitado! Ficamos mais depressa, agarrados ao errado do que ao certo! Tentamos acordar para a vida, quando a nossa mente só quer dormir, para sonhar com o passado! O problema nunca foi sentir culpa — o problema sempre foi o que fazemos com ela depois de a sentir. O problema nunca foi o arrependimento — o problema sempre foi se tivemos coragem suficiente para aprender alguma coisa com ele antes que fosse tarde demais para que essa aprendizagem servisse de alguma coisa. E a maioria das pessoas não aprende. Aliás, hoje em dia, acredita-se que só os estúpidos aprendem! Agora somos pessoas que sabemos tudo, só porque temos na mão um telemóvel, para ir ao Google ou ao ChatGPT! A maioria das pessoas, usa a culpa para se martirizar sem propósito e o arrependimento para vitimizar-se sem crescimento interior! As pessoas ficam ali, paralisadas num sofrimento que não transforma nada, que não resolve nada, que não move nada — um sofrimento que existe apenas para existir, como uma decoração dolorosa numa casa, que ninguém habita verdadeiramente. Somos corpos abandonados ao passado! As vidas das pessoas, que vivem com culpa e arrependimento, são o pré morte! Ainda respiram, mas já cá não vivem, pois quem não vive o presente não vive verdadeiramente! Quem vive no passado, muitas vezes prefere morrer! Viver a culpa não é saudável — isso é punição sem julgamento, prisão sem crime claramente definido, e é simultaneamente a forma mais eficaz e mais subtil que o ser humano encontrou, para nunca ter de confrontar-se com a necessidade real de mudar. Mudar para quem vive com culpa, gera mais culpa! Mudar para quem vive em arrependimento, gera mais arrependimento! E com isto tudo, há uma coisa que acontece sempre antes de partirmos desta vida... Arrependemo-nos de não termos conseguido libertamo-nos das culpas!
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