E de repente, começa-se a viver!
Esta narração é baseada num caso verídico, passado em consulta e por isso entristece-me como psicólogo e até como homem, saber a realidade de muitas mulheres! Apesar de já ter acontecido há algum tempo, continua a ser assunto, mais do actual. Acompanhava uma paciente que sofria de depressão (daí ser paciente), que procurou a psicologia alegando que "se sentia vexada pelo marido a procurar para relações sexuais vezes demais"! Como psicólogo, as palavras são demasiado importantes, por isso valorizei a palavra "vexada". Vexamento inclui vergonha ou humilhação! Como psicólogo, tenho o hábito de não partilhar logo no início do acompanhamento clínico, o que valorizo no caso pois o que EU valorizo pode não ser valorizado, por quem eu acompanho. Por isso perante a paciente, não valorizei a verbalização! As sessões decorriam e eu ia desconstruindo a história de vida desta mulher. A depressão era algo recente e resultado do vexamento! Estava na casa dos quarenta, casada desde sempre com o seu primeiro namorado, com quem tinha perdido a virgindade. Teve 3 filhos (2 rapazes e uma menina) que foram educados, mimados e seguiram as suas vidas. Era uma mulher atenta, sorria com vergonha de alguns gestos que usava para acompanhar as palavras, a sua curiosidade notava-se e via-se que pensava sempre no que dizia. Tinha um amor imenso, pelos seus dois cães e cinco gatos. Por opção do casal, nunca trabalhou para ninguém, pois ser mãe de três filhos é em si um trabalho extenuante. O casal soube ultrapassar todos os principais desafios da vida, de forma unida e maioritariamente em consenso. Passadas algumas sessões, eu já tinha algumas certezas! Esta mulher, tinha uma vida com poucas experiências de vida! Esta mulher, tinha tido uma educação rígida e não permissiva! Esta mulher, era uma crente praticante da sua religião! Esta mulher, casou por amor e amor para ela é para sempre! Esta mulher, acredita que tem obrigações concretas, sendo esposa! Esta mulher, só teve um homem na sua vida sexual e por isso não tem comparativos! Esta mulher, funciona fisiológicamente e emocionalmente de forma normativa no sexo. Esta mulher, desvaloriza a sua beleza, sensualidade e até o seu corpo! A palavra "vexada", não se aplicava ao seu contexto e isso deixava-me focado no PORQUÊ, dela a ter utilizado para descrever a sua vivência sexual. As sessões envolveram também o marido a meu pedido, para eu excluir pela vertente masculina causas de vexamento. Era um homem cortês, de fácil sorriso, com charme que a idade lhe trouxe, com uma educação machista do tipo preguiçoso em contexto doméstico, trabalhador fora de casa, sem vícios, não fazia exercício físico, pouco mulherengo e religioso. Nada que levantasse alarmes vermelhos, emparelhadas com a palavra "vexada"! Depois da história da mulher, as sessões passaram para a especificidade da queixa da paciente ou seja a sua sexualidade. A vergonha na verbalização, sobre a temática era esperada, mas mesmo assim ela falava e conseguia expressar-se! Claro que a verbalização, era feita numa linguagem infantilizada e muito pontuada por silêncios, sobre palavras proibidas para ela. Mas a curiosidade dela, era fogo que ardia e a consumia. A sua sexualidade, não era pontuada por demonstrações de afectos em público, mesmo que o público fossem os filhos. No fundo, tudo se resumia ao quarto e aos períodos nocturnos. Sempre com pouca luz e nunca mas nunca nua! A palavra "vexada", começava a enquadrar-se nesta sexualidade tímida e pouco praticada. Quando eu falava, de casos de outros casais para alimentar as suas comparações, os olhos dela brilhavam e via-se que nenhuma palavra minha, deixava de ser ouvida. Por algumas vezes, ela irritou-se por as consultas acabarem quando ela estava, demasiada eufórica a ouvir! Via-se que se excitava, a falar de sexo! Nota: Claro que as mulheres e os homens em consulta, podem ficar excitados! Não por estarem em consulta, mas pelos assuntos falados! As sessões iam passando e ela perguntava mais e queria entender tudo! Sexo oral, masturbação e sexo anal eram curiosidades, que ela queria ver satisfeitas. O mais belo de tudo, é que ela falava nas sessões e depois ia fazer TPC sobre as temáticas, em casa com o marido. Escrevia contos sobre as suas experiências, que a faziam sentir personagem nos filmes realizados por ela. O marido fez questão de ligar-me e dizer que não estava a reconhecer a esposa, MAS PARA MELHOR, por isso agradeceu-me e disse que o melhor que a esposa tinha feito, era ter procurado ajuda. O meu ego do psicólogo inchou, pois nada me dá mais prazer, do que ver mudanças para melhor, nas pessoas que acompanho! A palavra "vexada" tinha desaparecido do vocabulário da paciente! Ela ria-se a contar das surpresas, que fazia ao marido! Coisa simples, como fazer amor de luz acesa ou fazerem amor durante o dia. Verbalizava que andava mais feliz e mais "leve". Até dormia como nunca tinha dormido. Já tinha dito ao psiquiatra, que queria acabar com os fármacos para a depressão! Tudo verbalizações, de quem estava a empoderar e a gostar do seu novo eu. A reclamação sobre número de vezes que era procurada para relações sexuais, foi substituída pelas surpresas que agora fazia ao marido! Uma vida inteira desperdiçada, a fazer amor sempre na mesma posição, dizia ela e ria-se! As sessões avançavam e ela era proactiva na procura de mais vivências. Perguntava sobre tudo! Palavras que nunca tinha sequer pensado, eram agora ditas! Com muita vergonha, mas eram dias! A educação sexual, passou a ser o seu foco. O que outros faziam, como faziam, quais os perigos. Para um psicólogo, ver este tipo de empoderamento é maravilhoso. As minhas conversas com o marido, eram sempre positivas. O casal redescobriu-se, passado décadas! Confesso que os via mais novos nos sorrisos, na forma como se tratavam e até já via abraços e beijos com público. A religião deixou de pesar, na forma como ela via a vida! A palavra "vexada" vinha daí, das limitações religiosas onde tudo é pecado se for desviante da maioria. Mas ela estava mais poderosa e o casal mais unido! Numa consulta ela riu-se a falar sobre as expressões que a filha fazia, quando ela agora falava de sexualidade com ela. Eu sabia o que ela queria, dizer à filha! Ela queria dizer que ela não esperasse décadas, para conhecer-se e viver a vida! Mas numa consulta em particular, ela surpreendeu-me realmente. E para eu ficar surpreendido, acreditem que é preciso mais, do que muito. Estava a falar e de repente olhou para umas caixas brancas que eu tinha, numa mesa no consultório! Continuava a falar, mas não tirava de lá os olhos! De repente parou de falar e disse "Sr. Dr. o que têm aquelas caixas?" No mesmo minuto pediu desculpa, por a curiosidade dela poder ser falta de educação! Quem me conhece sabe, que o meu sentido de humor nunca me larga! Disse-lhe que as caixas, continham pecado! Pronto! O que fui dizer! Agora ela estava focada! Passou de curiosa, a miúda adolescente a bater palmas, para saber o que tinham as caixas! Eu apenas quis saber, porque as caixas lhe chamaram à atenção! "São tantas e iguais Sr. Dr. e ainda por cima brancas sem nada dizerem!" Ri-me e levantei-me para ir buscar uma! Entreguei-lhe a caixa e disse "repito que contém pecado!" Ela nem ouviu o que lhe disse, pois as mãos dela foram mais rápidas que o cérebro! Parecia criança, em noite de Natal! Ela gritou de espanto, pois dentro da caixa estava um vibrador! Ficou vermelha e só dizia, "é cor de rosa, é cor de rosa!" Nunca perco a minha calma nem o meu sentido pedagógico em consulta, por isso disse-lhe que ela estava a verbalizar o óbvio!Sim, a cor do vibrador era cor de rosa! Ela apercebeu-se que se estava a repetir e olhou para mim, com um olhar de reprovação! "O Sr. Dr. vende vibradores?!" Respondi que sim, pois muitas pacientes e clientes, têm vergonha de ir a uma sexshop ou mesmo de comprarem online, pois têm vergonha que alguém, possa abrir a caixa que lhes chegue via correio! As mãos dela tremiam, mais do que o vibrador se ele estivesse a funcionar! Olhou para mim e disse algo que me fez quase sair do papel de psicólogo. "O Sr. Dr. é o meu anjo vigilante disfarçado!" Dei uma gargalhada, dizendo-lhe que os anjos não vende vibradores, nem mesmo aquele a que chamam de Cupido! Ela riu-se envergonhada e disse sem gaguejar! "Sr. Dr. quero comprar dois vibradores cor de rosa!" Ela disse a rir! "Vou fazer duas surpresas!" Uma ao meu marido, logo à noite!" Eu fiquei receoso do que ela ia dizer sobre a segunda surpresa, por isso foquei a minha atenção no que ela ia dizer a seguir... "O outro vou oferecer à minha filha, pois ela é inocente demais para a idade que tem!" Recordo este momento, como um dos meus sucessos como psicólogo! Uma mulher inocente, empoderou ao ponto de agora, ir empoderar outras mulheres! Adoro o que a minha profissão pode dar, às pessoas que procuram ajuda!
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