Num mundo onde as inseguranças reinam
Num mundo onde as inseguranças reinam, temos de tornar os nossos desejos realidade. Não amanhã, não quando as condições forem perfeitas, não quando a vergonha finalmente nos abandonar. Agora. Com o corpo que temos, com o desejo que existe e que insiste em existir mesmo quando tudo à nossa volta tenta silenciá-lo! Corpos que se amam e que têm desejo! Corpos que se esqueceram de amar. Corpos que amam por rotina, porque têm que o fazer pois estão numa relação! Corpos que não amam, mas vivem sequiosos de o fazer, carregando esse vazio como quem carrega uma mala demasiado pesada, numa viagem que não tem fim. Corpos que fazem sexo sem amor e encontram nesse acto uma liberdade, que o amor, às vezes, não consegue dar. Corpos que usam o sexo para rejuvenescer, para se relembrarem de que ainda estão vivos, de que ainda pulsam, de que ainda merecem prazer. Corpos que só sabem o que é o amor e dizem, com convicção, que jamais farão só sexo. Corpos abandonados, que nem praticam amor nem sexo, suspensos numa existência sem toque, sem calor, sem eco. Corpos que, sem amor e sem sexo, ainda têm tesão. E que nessa tesão encontram a prova de que ainda não morreram, por dentro. E por fim e os mais trágicos: corpos sem tesão. Esses já estão mortos, mesmo que por aí andem, mesmo que falem, mesmo que sorriam nas fotografias. Corpos sem tesão é o mesmo que amor sem reciprocidade. Está tudo lá, a forma, a aparência, a estrutura. Mas falta algo. Falta o pulso falta a tesão! Falta a vida que se sente de dentro para fora, têm tesão a menos e vazios a mais! A tesão tem de ser trabalhada. Tem de ser praticada, provocada, nutrida, convidada. Não aparece por acaso nem se instala sem cultivo. É fonte de prazer, sim, mas é também fonte de conhecimento. Conhecimento de si, do outro, do que o corpo é capaz de sentir quando lhe damos permissão para sentir. Pode haver tesão sem corpos, tal como existe por aí muito corpo sem tesão. Tesão sem corpos chama-se fantasia. E as fantasias são tão reais quanto qualquer toque físico, porque acontecem no único lugar onde a tesão verdadeiramente vive: o cérebro. O lugar certo para a tesão está no cérebro. Sempre esteve. O corpo é o instrumento, mas a música começa na cabeça. Quem tem o cérebro demasiado ocupado com obrigações, com culpas, com o peso das expectativas alheias, mal consegue ouvir essa música. Quem tem o cérebro livre, ou pelo menos disposto a libertar-se, não lhe falta tempo nem vontade para pensar em tesão, para a imaginar, para a construir como quem constrói uma casa tijolo a tijolo. A tesão vive nos corpos que se libertaram das inseguranças. E as inseguranças, convém dizê-lo com clareza, não são fraqueza de carácter nem falha moral. São, na maior parte das vezes, falta de aprendizagem e de prática. Ninguém nasce a saber amar, a saber seduzir, a saber habitar o próprio corpo com confiança. Aprende-se o acto sexual, aprende-se a namorar, aprende-se a provocação, aprende-se a sexualidade das roupas, dos gestos e do olhar! Mas ninguém ensina tesão. É o mesmo que ir para o deserto sem bússola. Podemos sobreviver, talvez, mas andaremos em círculos, confusos, à mercê do vento. Sem tesão ficamos à deriva e perdemo-nos de nós. Perdemos o fio que nos liga ao que somos quando não estamos a fingir, quando não estamos a cumprir papéis, quando somos apenas carne e desejo e presença. Tesão é beijar com um beijo carregado de apalpões, de chupões, de uma vontade genuína de descobrir sabores e cheiros. É nos sabores e nos cheiros que está a maior tesão. Não nas imagens, não nas formas. O olfacto é o sentido mais primitivo, o que chega primeiro ao cérebro, o que contorna a racionalidade e fala directamente ao instinto. O aroma de uma vagina molhada ou de um pénis suado é tesão sublime. É a concretização das nossas fantasias e desejos, confirmada pelo nariz antes de qualquer palavra ser dita. Já o sentimos antes de o nosso nariz e boca o praticarem. O corpo sabe. O corpo reconhece. O corpo responde antes de a mente ter tempo de sabotar! Quem aprende a tesão de forma errada não sabe nada disto. São pessoas que ficam paradas na superfície, a olharem para a água sem nunca se terem atrevido a mergulhar. A tesão aprendida de forma errada gera nojo! O nojo e a vergonha do corpo são inimigos da tesão. São muros que se constroem cedo, na infância, na adolescência, através de palavras descuidadas de pais bem-intencionados, de religiões que confundem pudor com virtude, de culturas que ensinaram às mulheres que o seu prazer era irrelevante e aos homens que a sua vulnerabilidade era fraqueza. Nos dias de hoje, ainda existem mulheres que vêem a vagina como algo sujo. E existem homens que pensam o mesmo, sobre si próprios, sobre os seus corpos, sobre o desejo que sentem e que não sabem como praticar uma sexualidade saudável! Encontrar tesão nestas pessoas é como procurar virgindade numa prostituta. Não por julgamento, mas por impossibilidade. O que foi bloqueado durante tanto tempo não se desbloqueia com boa vontade. Precisa de trabalho, de paciência, de alguém ou de algo que demonstre que o corpo é sagrado precisamente porque é físico, precisamente porque transpira e cheira e deseja. Más aprendizagens são piores que falta de aprendizagem. Quem nunca aprendeu pode começar do zero. Quem aprendeu errado tem primeiro de desaprender, e isso é muito mais difícil. Quando se unem duas pessoas que fazem do nojo critério de selecção, descobrimos pessoas tristes e sofridas. São pessoas que apenas fodem para terem filhos. Não o fazem por prazer. Fazem-no como quem cumpre uma tarefa com função, como quem assina um documento obrigatório. O sexo, para elas, é um meio para um fim, nunca um fim em si mesmo, nunca uma celebração, nunca uma linguagem entre dois corpos que se querem. O oposto é maravilhoso. Duas pessoas conscientes da sua sexualidade, que aprenderam a habitar o próprio desejo sem vergonha, conseguem orgasmos mesmo sem se verem. São pessoas que fantasiam e sorriem. Que fecham os olhos em plena tarde de trabalho e viajam, por uns segundos, para um lugar que só existe na imaginação e que, por isso mesmo, é completamente delas. Aprender a tesão é descobrir como os corpos reagem ao sexo. É perceber que tesão não são vaginas molhadas ou pénis erectos. Esses são apenas resultados, sintomas, efeitos. A tesão é a causa. A tesão é fantasia, são desejos inconfessos, são as imagens que surgem nos momentos mais inesperados e que nunca contámos a ninguém. Tesão é pôr os corpos a gemer. É mimar corpos, fazê-los reagir ao toque, provocar arrepios, arrancar tremuras, descobrir que existe um ponto, algures entre a nuca e os joelhos, que ninguém jamais tocou da forma certa. Quem não aprendeu a ter e a provocar tesão apenas fode para procriar, para despachar o assunto, ou, pior ainda, nem fode! Geralmente são pessoas que vivem para criar problemas aos outros! Vivem numa espécie de exílio do próprio corpo, convencido, de que o que não sentem não faz falta. Não há idade para ter tesão. Vai desde a descoberta, por volta dos dez anos, quando o corpo começa a enviar sinais que ainda não sabemos interpretar, até à idade de partirmos desta vida. Há pessoas idosas mais sexuais, que pessoas muito mais novas! São tesões diferentes ao longo do tempo. Mais urgentes na juventude, mais profundas na maturidade, mais lentas e maravilhosas na velhice. Mas são sempre formas de dar prazer ao corpo, de dizer ao corpo que ele importa, que o que ele sente tem valor, que merece atenção e cuidado. Aprender a ter e a dar tesão é essencial para foder e para fazer amor. Não são a mesma coisa e saber a diferença é já meio caminho andado. Quem fode sem tesão ainda não sentiu o que é o desejo. Fez os movimentos, talvez até tenha atingido o orgasmo, mas não chegou ao lugar onde o sexo deixa de ser acto e se torna experiência. E infelizmente há pessoas que acham que ter tesão é algo impróprio. Que o desejo é vulgar, que a vontade é fraqueza, que sentir é perigoso. Essas pessoas jamais vão provocar tesão nos outros, porque não o permitem em si mesmas. São aquelas que evitam dar peidos, porque também é impróprio fazê-lo. Que vivem enclausuradas na ideia de que a dignidade se conquista contendo o corpo, negando-o, ignorando tudo o que nele é humano e portanto imperfeito e portanto belo. A tesão não pede licença. Existe apesar de tudo, apesar das inseguranças, apesar das más aprendizagens, apesar dos anos de silêncio imposto. E a melhor coisa que podemos fazer por nós é aprender a ouvi-la. E quem ouve o seu corpo e não esconde a sua tesão, atrai mais vida!
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