Há pessoas que vivem no passado, simplesmente porque foi lá que foram felizes!
Não percebem que por valorizarem o seu passado, não permitem que a felicidade exista no seu presente!
São pessoas sonhadoras, que vivem hoje a pensar no que já viveram!
Não são pessoas que sonham com o futuro, mas sim com o passado!
Esta é a história de uma dessas pessoas!
Passei anos a viver preso ao passado. Durante muito tempo achei que era apenas saudade, mas hoje percebo que era medo, medo do presente! Medo da mudança, medo de aceitar que a vida continuava a avançar enquanto eu permanecia parado dentro das minhas próprias memórias!!
Houve uma altura da minha vida em que eu era genuinamente feliz. Pelo menos é assim que me lembro de mim!
Os verões pareciam infinitos, os amigos eram presença constante e o futuro ainda não me assustava. Tudo parecia possível naquela época! O amor tinha intensidade, os sonhos tinham força e eu acordava todos os dias sem o peso das desilusões que mais tarde vieram ocupar espaço dentro de mim!
Com o passar dos anos, comecei a olhar para trás vezes demais. No início eram apenas recordações inocentes. Uma música antiga. Uma fotografia esquecida. Uma conversa sobre tempos melhores!
Mas sem perceber, comecei a viver mais dentro dessas memórias do que dentro da minha própria vida!
O hoje não me entusiasma, nem puxa pela minha curiosidade!
O passado tornou-se o lugar onde eu me sinto seguro!
Só que o passado, não existe no presente, logo não o posso viver!
No presente tudo pode falhar, as pessoas podem partir, os planos podem correr mal, o amor pode não resultar!
Prefiro viver a pensar no passado, pois esse já não me pode magoar!
Passei anos a comparar tudo com aquilo que tinha vivido. Nenhum lugar parecia tão bonito como os lugares da minha juventude. Nenhuma amizade parecia tão verdadeira. Nenhum amor parecia tão intenso. O presente nunca tinha hipótese, porque eu estava constantemente a colocá-lo ao lado de memórias que o tempo tinha tornado perfeitas!
O problema é que eu já não me lembrava da realidade. Lembrava-me apenas da versão romantizada dela!
Esqueci as inseguranças daquela época. Esqueci as noites em que chorei. Esqueci os medos que também existiam. A saudade apagou tudo isso e deixou apenas aquilo que me fazia acreditar que o melhor da minha vida tinha ficado para trás!
E talvez tenha sido essa a minha maior prisãoa
Eu não tinha apenas saudades do passado. Eu tinha medo de voltar a viver no presente!
Porque viver no presente exige coragem. Exige aceitar incertezas. Exige criar novas memórias sem garantia de que serão melhores do que as antigas. E eu não queria correr esse risco. Era mais fácil permanecer emocionalmente agarrado ao que já conhecia!
Houve dias em que passava horas a rever fotografias antigas. Ouvia músicas da adolescência como quem tenta abrir uma porta para outra vida. Procurava rostos antigos nas redes sociais apenas para confirmar que o tempo também tinha passado por eles. Era uma forma estranha de consolo!
Na realidade estava a viver num luto interminável, que destruía-me lentamente!
Eu estava vivo, mas não estava realmente presente. Os dias passavam sem entusiasmo. As pessoas falavam comigo e eu respondia automaticamente, enquanto parte da minha mente continuava presa em momentos que já não existiam!
O mais doloroso era perceber que eu próprio já não era aquela pessoa!
Os lugares mudaram, as pessoas mudaram e eu mudei!
E aceitar isso parecia uma espécie de castigo silencioso!
Durante muito tempo acreditei que sentir saudades era uma forma de manter vivos os momentos importantes da minha vida. Hoje percebo que também pode ser uma forma de impedir a vida de continuar!
A nostalgia tornou-se uma prisão confortável! Uma prisão feita de memórias bonitas, mas ainda assim uma prisão!
O que mais me assustava era pensar que talvez nunca mais voltasse a sentir aquela intensidade emocional da juventude. Achava que felicidade significava repetir emoções antigas. E como isso era impossível, comecei a acreditar que a melhor parte da minha vida já tinha terminado!
Dei comigo a envelhecer ainda novo e a preparar o meu enterro comigo ainda vivo!
Mas um dia percebi algo importante!
Talvez a felicidade não precise repetir o passado para existir!
Talvez a vida apenas precise que eu a viva!
Talvez crescer seja exatamente isto: aprender que algumas coisas nunca regressam, mas outras podem nascer se tivermos coragem de continuar presentes!
Procurei a psicologia e o Dr. Fernando Ayres Mendonça, puxou-me para o presente!
Hoje continuo a sentir saudades. Continuo a recordar pessoas, lugares e momentos que marcaram a minha vida. Mas já não quero viver permanentemente dentro deles!
Porque finalmente percebi que o passado pode ser visitado, mas não habitado!
E por mais imperfeito que o presente seja, é nele que a vida ainda acontece!
