Sexualidade
Esta narração é baseada num caso verídico passado em consulta e por isso entristece-me como psicólogo e até como homem mostrar a realidade de muitas mulheres!
Por outro lado é a prova que pedir ajuda resulta! 🙂
Apesar de já ter acontecido há algum tempo continua a ser actual.
Acompanhava uma cliente que me procurou alegando que "se sentia vexada pelo marido a procurar para relações vezes demais"!
Como psicólogo as palavras são demasiado importantes por isso valorizei a palavra "vexada".
Faço copy paste de um dicionário para perceberem o porquê de eu ter ficado a valorizar a palavra "vexada":
"1. Passar ou fazer passar alguém por uma vergonha ou humilhação. = AFRONTAR, HUMILHAR
2. Fazer sentir vergonha ou ficar envergonhado. = ENVERGONHAR-SE
3. Infligir ou sofrer imposições ou maus-tratos. = AFLIGIR, ATORMENTAR, MALTRATAR, MOLESTAR, OPRIMIR
"vexada", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2021, https://dicionario.priberam.org/vexada [consultado em 13-02-2021]."
Como psicólogo tenho um hábito de não partilhar logo no início do acompanhamento clínico o que valorizo no caso, pois o que EU valorizo pode não ser valorizado por quem eu acompanho.
As sessões decorriam e eu ia desconstruindo a história de vida desta mulher.
Estava na casa dos quarenta, casada desde sempre com o seu primeiro namorado, com quem tinha perdido a virgindade.
Teve 3 filhos (2 rapazes e uma menina) que foram educados, mimados e seguiram as suas vidas.
Era atenta, sorria com vergonha do acto, a sua curiosidade notava-se e via-se que pensava sempre no que dizia.
Tinha dois cães e cinco gatos.
Por opção do casal nunca trabalhou para ninguém pois ser mãe de três filhos é trabalho extenuante.
O casal soube ultrapassar todos os principais desafios da vida de forma unida e maioritariamente em consenso.
Passado algumas sessões já tinha algumas certezas!
Esta mulher tinha uma vida com poucas experiências de vida!
Esta mulher tinha tido uma educação rígida e não permissiva!
Esta mulher era uma crente praticante da sua religião!
Esta mulher casou por amor e amor para ela é para sempre!
Esta mulher acredita que tem obrigações concretas sendo esposa!
Esta mulher teve um homem na sua vida sexual e por isso não tem comparativos!
Esta mulher funciona fisiológicamente e emocionalmente de forma normativa no sexo.
Esta mulher desvaloriza a sua beleza, sensualidade e até o seu corpo!
A palavra "vexada" não se aplicava ao seu contexto e isso deixava-me focado no PORQUÊ dela a ter utilizado para descrever a sua vivência.
As sessões envolveram também o marido a meu pedido para eu excluir pela vertente masculina causas de vexamento.
Era um homem cortês, de fácil sorriso, com charme que a idade lhe trouxe, com educação machista do tipo preguiçoso em contexto doméstico trabalhador, sem vícios, não fazia exercício físico, pouco mulherengo e religioso.
Nada que levantasse alarmes vermelhos emparelhadas com a palavra "vexada"!
Depois da história da mulher as sessões passaram para a especificidade da queixa da cliente ou seja a sua sexualidade.
A vergonha na sua verbalização sobre a temática era esperada mas mesmo assim ela falava conseguia falar.
Claro que a verbalização era feita numa linguagem infantilizada e muito pontuada por silêncios sobre palavras proibidas para ela.
Mas a curiosidade dela era fogo que ardia e a consumia.
A sua sexualidade não era pontuada por demonstrações de afectos em público mesmo que o público fossem os filhos.
No fundo tudo se resumia ao quarto e aos períodos nocturnos.
Sempre com pouca luz e nunca mas nunca nua!
A palavra "vexada" começava a enquadrar-se nesta sexualidade tímida e pouco praticada.
Quando eu falava de casos de outros casais para alimentar as suas comparações os olhos dela brilhavam e via-se que nenhuma palavra minha deixava de ser ouvida.
Por algumas vezes ela irritou-se por as consultas acabarem quando ela estava demasiada excitada a ouvir!
Claro que as mulheres e os homens em consulta podem ficar excitados!Não por estarem em consulta mas pelos assuntos falados!
As sessões passavam e ela perguntava mais e queria entender tudo!
Sexo oral, masturbação e sexo anal eram curiosidades que ela queria ver satisfeitas.
O belo é que ela falava nas sessões e depois ia fazer TPC sobre as temáticas em casa com o marido.
Escrevia contos das suas experiências que a faziam sentir personagem nos filmes realizados por ela.
O marido fez questão de me ligar e dizer que não estava a reconhecer a esposa MAS PARA MELHOR, por isso agradeceu-me e disse que o melhor que a esposa tinha feito era ter pedido ajuda.
O ego do psicólogo inchou pois nada nos dá mais prazer do que ver mudanças para melhor.
A palavra "vexada" tinha desaparecido do vocabulário da cliente.
Ela ria-se a contar das surpresas que fazia ao marido!
Coisa simples como fazer amor de luz acesa ou fazerem amor durante o dia.
Verbalizava que andava mais feliz e mais "leve".
Até dormia como nunca tinha dormido.
Sono profundo e saudável!
Tudo verbalizações de quem estava a empoderar e a gostar do seu novo eu.
A reclamação sobre número de vezes que era procurada para relações foi substituída pelas surpresas que agora fazia.
Uma vida inteira desperdiçada a fazer amor sempre na mesma posição dizia ela e ria-se!
As sessões avançavam e ela era proactiva na procura de mais vivências.
Perguntava sobre tudo! Palavras que nunca tinha sequer pensado eram ditas!Com vergonha mas eram dias!
A educação sexual passou a ser o seu foco.
O que outros faziam, como faziam, quais os perigos.
Para um psicólogo ver este tipo de empoderamento é maravilhoso.
As minhas conversas com o marido eram sempre positivas.
O casal redescobriu-se passado décadas!
Confesso que os via mais novos nos sorrisos, na forma como se tratavam e até já via abraços e beijos com público.
A religião deixou de pesar na forma como ela via a vida!
A palavra "vexada" vinha daí...das limitações religiosas onde tudo é pecado se for desviante da maioria.
Mas ela estava mais poderosa e o casal mais unido!
Numa consulta ela ria-se a falar das expressões da cara da filha quando ela agora falava de sexualidade com ela.
Eu sabia o que ela queria dizer à filha!
Ela queria dizer que ela não esperasse décadas para conhecer-se.
Mas numa consulta em particular ela surpreendeu-me realmente.
E para eu me surpreender é preciso mais do que muito.
Estava a falar e de repente olhou para umas caixas brancas que eu tinha numa mesa no consultório...
Falava mas não tirava de lá os olhos!
De repente parou de falar e disse "Sr. Dr. o que têm aquelas caixas?"
No mesmo minuto pediu desculpa por a curiosidade dela poder ser falta de educação!!
Ao fim de algum tempo já conhecemos as(os) nossas(os) clientes melhor que elas(eles) próprios, por isso descansei-a dizendo que Ela jamais poderia ser mal educada pois sempre valorizou até demais a educação!
Quem me conhece sabe que o meu sentido de humor nunca me larga...
Disse-lhe que as caixas continham pecado!
Pronto!
Ela passou de curiosa a miúda adolescente a bater palmas para saber o que tinham as caixas!
Não tinha nenhuma problema na resposta mas quis saber porque as caixas lhe chamaram à atenção...
"São tantas e iguais Sr. Dr. e ainda por cima brancas sem nada dizerem!!!"
Ri-me e fui buscar uma!
Entreguei-lhe a caixa e disse "repito que contém pecado!"
Ela nem ouviu pois as mãos dela foram mais rápidas que o cérebro!
Eu olhei a cena e imaginei esta mulher no Natal ou no dia de anos ávida de abrir presentes...
Abstraido nesta imaginação ouvi um grito que me fez regressar ao momento presente!
Ela gritou de espanto por dentro da caixa estar um vibrador!
Ficou vermelha e só dizia..."É cor de rosa!E cor de rosa!"
Nunca perco a calma nem o meu sentido pedagógico em consulta por isso disse-lhe que ela estava a verbalizar o óbvio...sim a cor do vibrador era cor de rosa!
Ela apercebeu-se que se estava a repetir e olhou para mim com um olhar de reprovação!
"O Sr. Dr. vende vibradores?!"
Respondi que sim pois muitas clientes têm vergonha de ir a uma sexshop ou de comprar online pois têm vergonha que alguém possa abrir a caixa.
As mãos dela tremiam mais do que o vibrador!
Olhou para mim e disse algo que me fez quase sair do papel de psicólogo.
"O Sr. Dr. é um anjo disfarçado!"
Dei uma gargalhada dizendo-lhe que os anjos não vendem vibradores, nem aquele a que chamam de Cupido!
Ela riu-se envergonhada e disse...
"Sr. Dr. quero comprar dois iguais dos rosa!"
Olhei para ela surpreendido (pois tinha outros diferentes) por ela querer dois iguais...
Ela disse a rir!
"Vou fazer duas surpresas!Uma ao meu marido logo à noite!"
Eu fiquei receoso do que ela ia dizer sobre a segunda surpresa por isso foquei a minha atenção no que ela ia dizer a seguir..
"O outro vou oferecer à minha filha pois ela é inocente demais para a idade que tem!"
Recordo este momento como um dos meus sucessos como psicólogo...uma inocente empoderou para agora empoderar outras mulheres!
Adoro o que a minha profissão pode dar às pessoas que procuram ajuda...
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